segunda-feira, novembro 07, 2005

O Mito das Faculdades de Medicina



O Diário Digital noticiou este fim-de-semana, que o governo não vai permitir a construção de mais faculdades de medicina no país. O ministro da ciência e ensino superior, Mariano Gago, explicou que o grupo formado para estudar o tema, tinha chegado a essa conclusão. A decisão é absolutamente sensata, visto que o critério de abertura de faculdades de medicina em vários países (uma faculdade por cada dois milhões de habitantes), justifica o actual número no nosso país.
Porém a notícia é sempre vista com incredulidade por diversos sectores, nomeadamente quando acoplada a notícias da comunicação social relacionadas com a falta de médicos. Mariano Gago, apressou-se a dizer que no sentido de combater essa situação, o número de vagas para as actuais faculdades iriam aumentar.
A solução para a falta de médicos em diversas regiões do país não passa principalmente pelo aumento de vagas, mas sim pela redistribuição dos diversos trabalhadores ligados ao ramo da saúde. Se compararmos o número de médicos por densidade populacional, tendo por base a geografia de Portugal, teríamos dados que nos fariam reflectir de outra forma sobre o problema. Para além disso, as faculdades de medicina portuguesas enfrentam sérias dificuldades em leccionar o curso para o crescente número de alunos. Não esqueçamos que não se trata de um curso que basta confinar alunos num espaço, e fazê-los debitar diagnósticos e fármacos. Envolve uma grande interface entre tutor médico, aluno e doente(s). Por outro lado, uma faculdade de medicina encontra-se sempre associada a um hospital universitário, e dado o incremento de alunos no curso, as condições de aprendizagem estão a perder qualidade, havendo situações completamente completamente lastimáveis (tanto para os alunos como para os doentes).
A entrada de A alunos para a faculdade de medicina, não garante ao fim de dez anos (ou mais, consoante a especialidade), a saída de A profissionais médicos. É aqui que reside o mito. Para além da formação perder qualidade (pelo aumento desproporcionado de vagas), o que se repercute obviamente na qualificação dos profissionais, é interessante verificar o mito do desemprego médico. Primeiro, aumentar o número de vagas no curso, sem aumentar o número de internato, torna a primeira medida completamente inútil. Formamos lincenciados em medicina na faseI, mas não conseguimos passar o mesmo número para a fase II. E os formados na classe I, não têm permissão para exercer! Segundo e também preocupante, vivemos numa sociedade globalizada, integrado num espaço europeu. É já visível o aumento do número de médicos vindos de outros países da Europa, que exercem em Portugal. E esta situação não se limita a médicos que chegam prontos a exercer, pois alguns apenas possuem licenciaturas, e começam a ocupar vagas de internatos de especialidade. Desta forma, o aumento de vagas neste curso deve ser pensado com cautela e moderação, para que não se assista a desemprego médico em Portugal, como existe em tantos países na Europa.

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